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Depois da Companhia Nacional de Bailado ter dançado uma das quatro partes da obra “Impressing the Czar”, de William Forsythe, finalmente pudemos ver, no Centro Cultural de Belém, a obra completa dançada pelo Ballet da Flandres. A companhia, actualmente dirigida por Kathryn Bennets, visita Lisboa pela segunda vez depois de se ter apresentado na Gulbenkian em 1975.
A parte mais suculenta deste trabalho – “In the Midlle, Somewhat Elevated” - foi criada pelo conhecido coreógrafo norte-americano, em 1977, para o Ballet da Ópera de Paris. No ano seguinte, Forsythe completou o bailado de quase duas horas e meia (com dois intervalos) tornando-se um dos mais aclamados sucessos do, entretanto, extinto Ballet de Frankfurt.

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Com músicas de compositores tão diversos como Beethoven, Lesley Stuck, Eva Crossman-Hecht e Thom Willems, uma cenografia delirante de Michael Simon e figurinos contrastantes de Férial Simon, “Impressing the Czar” contém todos os ingredientes para agradar. Dança abstracta ligada ao turbo, dança teatral com laivos barrocos, dança ritual humorística e cenas representadas prenhes de movimento contínuo e burlesco.
É fácil perceber que a ideia de narrativa é frequentemente subjugada pelo movimento e que, tantas são as referências históricas e terpsicoreanas, que as interpretações do texto coreográfico querem-se variadas e, sobretudo, imaginativas.
A primeira parte, intitulada “A Assinatura de Potemkin”, surge em tons de castanho e dourado e apresenta uma babilónia de personagens num enorme tabuleiro de xadrez, que não param de dançar e correr em todas a s direcções. “In the Midlle…” é um exercício “pós-balanchiniano” em “pontas” com cascadas de piruetas e sucessivos deslocamentos de equilíbrio, levado quase às últimas consequências. A técnica clássica feminina é rainha, no seu mais perfeito esplendor, não passando os rapazes de súbditos a desdobrarem-se em sequências a solo e como "apoio" das bailarinas. Tentando competir com a velocidade proporcionada pelas sapatilhas de ponta, os elementos masculinos, apesar da dança escorreita e de muito difícil execução, jamais logram que as suas pernas se transformem em navalhas cortando o ar e os seus pés em lanças esventrando o chão.
“A Casa de Mezzo-Prezzo”, a terceira parte, poderá ser lida como uma metáfora se tivermos em conta que, na sua base, está um leilão frenético com figuras fantasiosas que gritam e gesticulam com uma ironia e graça muito particulares. Para o final, Forsythe junta cerca de 40 bailarinos (todos vestidos de meninas colegiais que agitam as suas perucas e atiram as suas pernas e braços para o ar em uníssono) e um “maître des plaisirs”, numa espécie de “sagração da Primavera” que se desenvolve em grandes linhas e círculos concêntricos.

Só que no final não há sacrifício nem climax, mas sim uns laivos de estupefacção cénica, um "bom" contagio com a força da energia remanescente e a admiração por um grupo muito profissional, bem dirigido e rigorosamente ensaiado e em que sobressaem artistas como Aki Saito, Claire Pascal, Wim Vanlessen, Sani Kleef, Alain Honorez e alguns outros... 

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