Tiago Guedes - foto alcantara 2008

Estreado no Théâtre Le Vivat, em Armentières (França) no início de Fevereiro, o quinteto “Coisas Maravilhosas”, de Tiago Guedes, só chegou em Junho à sala da Culturgest, em Lisboa, através do Festival Alcântara. 

O jovem coreógrafo português, que há meses se mudou para França, traz-nos uma peça com um título sugestivo, num registo “soft” e em tons de ocre. Os fatos e algumas poses bidimensionais dos bailarinos, sugerem, desde logo, umas ténues referências a um universo “egípcio”, sem que isso signifique um pastiche ou uma fantasiosa reprodução cinética inspirada nos registos escultóricos e pictóricos da Antiguidade.

Tudo começa na penumbra, com três raparigas e dois rapazes de pé e tronco nu, calças e  colares dourados, no centro de um palco negro e em cima de um estrado. Cantando a cappella, durante um bom quarto de hora, o ambiente que se estabelece é de calma e tranquilidade. Seguidamente uma música electrónica vai entrando de mansinho e os artistas começam a juntar-se em pares com movimentos lentos. A luz aumenta de intensidade e os corpos vão conquistando o palco onde desce um círculo que se vai iluminando como se se tratasse do Sol. 

Se o tema, ou a ausência dele, cria no espectador uma sensação de superficialidade no conteúdo de “Coisas Maravilhosas”, o que quase chega a ser perturbador é a maneira inócua como os “performers” atravessam a peça sem um pingo de emoção ou de entusiasmo. Ressalvam-se os momentos em que vêm até à boca de cena e olham os espectadores com ar de admiração. Poderá ter sido bonita a tentativa de piscar o olho à plateia, mas não foi suficientemente convincente. A falta de carisma de todos eles -   Cecília Bengolea, Denis Robert, François Chaignaud, Inês Jacques e Marlene Freitas – é uma realidade ao longo de uma peça em que se canta e dança mas em que o movimento jamais ultrapassa a trivialidade e o “déjà vu”. Seja ele decorrente da pose e do esboço de "infantis" brincadeiras.

Um dos momentos mais interessantes de “Coisas Maravilhosas” é mesmo o fim. Não por os bailarinos se deterem, mas porque duas pirâmides de pano se elevam em cima do estrado, em ambos os lados do Sol, deixando uma imagem calorosa da qual deixam de fazer parte os cinco intérpretes. Não é a primeira vez que Tiago Guedes utiliza, com imaginação e grande oportunidade, adereços realistas e cenografias simples para desenhar paisagens alegóricas.