BL - 2008 - BL C Carlson 103
 

Segundo um artigo recente, assinado no jornal “Libération” pela conhecida crítica de dança francesa Marie-Christine Vernay, “os  habitantes de Lyon gostavam de, ritualmente, assitir às missas dansantes, no quadro da Bienal de  Dança”.
Leia-se, lioneses e forasteiros, mioritariamente artistas e simpatizantes da Arte de Terpsicore, que se juntavam para com padres (por vezes, também bispos e arcebispos) partilhar um evento religioso particularmente dançado e cantado que o director daquele certame, Guy Darmet, organizava numa manhã de Domingo, quase sempre a do grande desfile carnavalesco que, de dois em dois anos, anima a cidade do Ródano e do Saône.
Sob o título “Des laïcs boutent la danse hors de la cathédrale” (Os laicos correm com a dança da catedral) a citada jornalista acrescenta que a Bienal deixou a velha catedral de São João, devido à pressão das associações que defendem um sistema laico e que recusam, escandalizados, ver os dinheiros públicos gastos em semelhantes eventos.

Numa altura em que Nicholas Sarkosy recebe o Papa Bento XVI em Paris e que lhe fala da bondade do “laicismo positivo”, não podemos deixar de nos lembrar de épocas em que a Igreja baniu do seu seio as “danças satânicas”.
Tanto quanto se sabe, a chamada “missa dos artistas” organizada pela Bienal, era um evento festivo em que os seus protagonistas – embora debaixo do tecto de um templo católico - não a transformavam num ritual fechado. Antes pelo contrário. Na verdade, para crentes e seguidores de outras crenças, e mesmo para ateus, sentia-se que era um encontro aberto a diferentes comunidades e artistas dos mais diveros quadrantes, laicos incluídos.

Saindo a dança e o canto da catedral de Lyon ganharam os laicos furiosos - sempre tão fanáticos como os religiosos obsessivos – e perdeu-se um evento que a todos dignificava. Em primeiro lugar, todos os artistas que se divertiam e divertiam todos os que, invariavelmente, enchiam a catedral de S. João até à porta.