Apesar do encerramento da melhor companhia de dança portuguesa de sempre, o Ballet Gulbenkian, e de um panorama rarefeito de grupos profissionais, nunca se terá dançado tanto em Portugal como nos últimos tempos.

Nunca se viu tanta dança comercial (televisão, publicidade, festivais, concursos, etc.) e nunca as escolas foram tão solicitadas para formas de movimento tão díspares e exóticas como o hip hop, as danças indianas, afro-brasileiras, orientais, espanholas, argentinas e caribenhas e para técnicas alternativas como o tai chi, o chi kung, o ioga, Pilates, Alexander e Feldenkrais, entre outras.

A dança tornou-se num lugar de fronteira entre muitas artes tendo, inevitavelmente, sido contaminada - a palavra, frequentemente, aplica-se no seu sentido original - pelas novas “tecnologias”, abrindo caminhos até, há pouco, desconhecidos.

Mas sem uma visão estratégica nacional e políticas sensatas de ensino e divulgação de uma arte, tão efémera quanto fascinante, os resultados nunca podem ser brilhantes.

Atente-se ao caso exemplar de França, que possui uma sólida tradição artística, inúmeras companhias de grande qualidade, um Centro Nacional, em Paris e, nada menos que, 21 Centros Coreográficos Regionais, para além de uma bem planificada rede de estabelecimentos de ensino.

Ao contrário, na nossa dança, alterna a “clássica” Companhia Nacional de Bailado, com projectos mais ou menos interessantes e mais ou menos profissionais. Todos na vertente contemporânea.

Se por um lado temos uma companhia em Lisboa, dita nacional – sem que ninguém possa precisar o que é que essa palavra significa – sem rei nem roque, de onde se evaporaram muitos milhões de euros sem deixar rasto, com um reportório e um elenco maioritariamente estrangeiros e de qualidade muito irregular. Por outro, existe um grupo de artistas sérios que tentam manter viva a chama em pequenas companhias com poucas possibilidades de garantirem uma actividade regular. Veja-se o caso dos grupos de Benvindo Fonseca (Lisboa), Daniel Cardoso (Amadora) e Elisa Worm (Estarreja).

Ao que se junta uma pulverização de projectos pontuais apoiados pelo Instituto das Artes – um organismo surrealista que nem um concurso normal com jurados confiáveis consegue lançar, para além de desbaratar, ano após ano, as verbas dos Portugueses com propostas altamente questionáveis e de interesse e representatividade (no país e estrangeiro) praticamente nulos.

E assim se vai perpetuando uma auréola de mediocridade com que o Ministério da Cultura parece não se preocupar nem dar qualquer resposta consistente.

Um debate alargado, a nível nacional, entre fazedores de dança e políticos é, pois, da máxima urgência!

António Laginha