Dourado

MARIA_CERVEIRA_©Rodrigo de Souza

O italiano Paolo Pinamonti, antigo director do Teatro Nacional de S. Carlos (TNSC), reduziu a última programação de dança do teatro a apenas duas figuras - Olga Roriz e Clara Andermatt -, fruto de uma escolha muito pessoal.

O que não terá sido uma decisão a aplaudir num "teatro nacional" onde se produziu a primeira companhia profissional portuguesa e que, ao longo de mais de meio século, tem apresentado grandes companhias de dança nacionais e internacionais de vários quadrantes estéticos.

Mas Olga Roriz soube como justificar o rótulo de coreógrafa portuguesa há mais tempo em actividade. A par de Vera Mantero é, seguramente, a que mais tem levado o nome de Portugal ao estrangeiro.

É certo que “Paraíso”, todo num registo de dança-teatro muito bauschiano, não será uma obra com a visibilidade de “Pedro e Inês” (que a CNB levou, com sucesso do público e reticências da crítica especializada, a Moscovo nos finais de 2007) mas brilhou e fez brilhar meia dúzia de bailarinos-actores que representam e cantam muito bem. Entregando-se de “alma e coração” a uma complexa teia em que canções sonantes se misturam com sentimentos contraditórios, de um modo tão apetecível como enternecedor e violento, que entretém sem cair na fugaz animação do momento.


Prateado


O Teatro Viriato, em Viseu – a par do Convento da Saudação em Montemor-o-Novo, de Rui Horta – tem vindo a afirmar-se como um dos poucos centros difusores de dança em Portugal. Apesar de constituir uma pálida imagem dos “centros coreográficos regionais” franceses (que, na maioria dos 19 casos, possuem um alcance, qualidade e regularidade de propostas, para além de projectos pedagógicos e financiamentos que nada tem a ver com o que se faz em Portugal) o Viriato, este ano, desceu à capital tendo Paulo Ribeiro apostado num programa duplo criado na Beira.

Depois de, “Malgré Nous...” um dueto simpático – dançado pelo próprio coreógrafo e a sua mulher Leonor Keil no Pequeno Auditório do CCB – Paulo Ribeiro levou ao Teatro Municipal Maria Matos um quarteto algo errático – “Masculine”.

Mais uma vez se comprovou que este coreógrafo raramente desilude no que toca ao humor. Neste trabalho junta quatro homens muito diferentes e faz passá-los pelo crivo das suas vivências de dança. E não só. Desde um pujante actor (Miguel Borges) a um bailarino entradote (Peter Dietz), passando por dois artistas da dança no activo – Romeu Runa e Romulus Neagu – todos mostraram ter em comum saber jogar futebol em palco! Partindo de estereótipos sociais e aproveitando as bolsas de energia de cada um dos quatro intérpretes, Paulo Ribeiro ofereceu um trabalho muito virado para um universo jovem e sedento de experiências físicas e, ao mesmo tempo, cognitivas.

Em 2008 espera-se por “Feminine”, um quarteto que deverá ser visto por todo o país, pois essa é condição para a qual o Ministério da Cultura paga a alguns grupos, designadamente ao CRAE das Beiras/Teatro Viriato, já que a companhia de Paulo Ribeiro deixou de ter bailarinos fixos tornando-se em mais uma "companhia instável".


A Companhia Amálgama – dirigida artística e coreograficamente por Alexandra Bataglia e Pedro Paz – estreou “Mater” em 2007 e tem mostrado um percurso ímpar no panorama da dança portuguesa.

Lento, mas estável (com uma ou outra proposta menos conseguida, como é o “Tablao do Fado”) o caminho do grupo, muito ligado ao esoterismo e a influências vindas das artes milenares chinesas, levou-o a alguns dos mais belos monumentos nacionais. Do palácio da Pena (Sintra) ao Convento de Mafra, passando pelo Convento da Cartuja (Sevilha) e pelo de S. Paulo, pertencente à Fundação Henrique Leote (Redondo) onde marca residências regulares, a Amálgama, dentro de alguma descrição tem levado águas (bentas, límpidas e frescas) ao seu moinho.


Sílvia Real é, seguramente, uma das coreógrafas portuguesas com um percurso mais coerente no nosso panorama artístico.

Há anos que se dedica, com cuidado e muito rigor, a um tipo de trabalho com uma ténue vertente infantil que agrada também aos adultos. Uma linha que alguns agora, à falta de melhor, começaram a explorar financeiramente. Depois de duas deliciosas miniaturas “Casio Tone” e “Sub Tone”, Sílvia Real e Sérgio Pelágio (co-autor e criador musical) fecharam o ciclo com “Tritone”.

Eles são divertidos, trabalhadores e argutos, mostrando seriedade no seu percurso. São, também, um exemplo de trabalho levando as suas divertidas “loucuras”, nem sempre muito dançantes, a todo o país. Para além de demonstrarem a inteligência de matar a neurótica Senhora Domicília – a protagonista única das três peças – na hora certa.


O Quorum Ballet, fundado por Daniel Cardoso e Theresa Silva Cardoso - antigos solistas da Companhia de Martha Graham, de Nova Iorque - e por duas artistas vindas do Ballet Gulbenkian e mais dois bailarinos formados pela Escola de Dança do Conservatório Nacional é uma jovem estrutura, muito leve e flexível que tem vindo a apresentar um trabalho sério e com invulgar regularidade.

Sedeado nos Recreios da Amadora o grupo, que já conseguiu alguma visibilidade no país e além-fronteiras, apresentou-se, em 2007, em vários palcos portugueses e dos Estados Unidos (Nova Iorque) e da Dinamarca.

Para o início de 2008 - nos dias 21 e 22 de Janeiro, pelas 22h00 - o Quorum Ballet tem agendada uma digressão a Singapura, no Esplanade Theatre Studio, para actuar no M1 Fringe Festival, com o espectáculo "Relações".


Cinzento


Fechou as suas portas o Lisboa Ballet Contemporâneo sob a direcção artística de Benvindo Fonseca.

Para além da companhia de Olga Roriz – e da CNB quando tem programas com melhor qualidade e não organiza galas só para convidados ou patrocinadores – este jovem e atractivo grupo era o único que conseguia encher o Teatro Camões com os seus espectáculos.

Embora nem todas as peças apresentadas fossem de primeira água, os trabalhos do ex-bailarino principal da Gulbenkian, tinham uma espécie de íman e alguns dos seus bailarinos um certo carisma.

Mesmo sem grandes apoios – o seu financiamento era privado e dependia, em muito, das receitas de bilheteira – o grupo, que dava emprego a uma dúzia de artistas, conseguiu mostrar-se no estrangeiro (Brasil e Itália, entre outros países) e manter algumas temporadas em Lisboa.

Mais um erro do Ministério da Cultura e, sobretudo, da Direcção Geral das Artes, que sempre recusou apoios ao grupo apesar da sua visibilidade e de temporadas de sucesso no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa.


Há pessoas que fazem tudo para ter visibilidade e conseguem-no através do apoio de alguns jornalistas que, propositadamente, omitem os fracassos e enaltecem o que nem sempre merece grande atenção. Sabe-se lá porquê!

Madalena Vitorino, que está à frente, há vários anos, do Centro de Pedagogia e Animação do Centro Cultural de Belém, lugar que proporciona óptimos contactos, desenvolveu esta temporada (quase em simultâneo) duas inciativas altamente badaladas. Uma peça "meio infantil" sobre a obra de Nadir Afonso, para o Teatro Maria Matos, e “Caruma”. Esta, num “linha etária” semelhante, estreou-se na Culturgest (aí programada por dois ex-colegas do CCB) sob os auspícios da Companhia Instável e com os inevitáveis dinheiros da Direcção Geral das Artes.

Foi pensoso ver meia dúzia de bailarinos perdidos numa espécie de proposta de “teatro povero”, completamente entregues a si próprios. Um trabalho com muitos meios mas sem uma única ideia original e em que os clichés abundam num registo entediante alimentado por imensos figurantes de ocasião, desorientados e sem qualquer noção de "timing" teatral. Representando-se a si próprios ou vestidos de freiras e padres patinadores, para além de transportarem bébés ao colo ou pela mão das respectivas mães, viram-se arrastados para uma proposta falsamente ecológica em que quase tudo parece tocar o aleatório.

Sem uma dramaturgia detectável, “Caruma” resultou num esquema “coreográfico” muito à semelhança dos das danças ancorados em receitas do género culinário ou pasteleiro.

Mal vai a dança quando a única coisa que alegra os olhos, em palco, ainda é a música. E a de "Caruma" foi atractiva e criativa, muito bem interpretada, ao vivo, por Carlos Bica e companhia.

Este foi o pior exemplo de como uma espécie de dança, com laivos de moda "não-dança", balançando-se entre a pretensão e o amadorismo, conseguiu andar pelo país com o suporte financeiro do Ministério da Cultura. Quando muitos outros trabalhos, com temáticas "adulta" e, seguramente, mais consistentes em termos coreográficos, quase têm que pagar para serem exibidos e, frequentemente, não conseguem mais que um reduzido número de apresentações.

A verdade é que alguns artistas raramente conseguem romper os muros de silêncio que certos teatros e programadores constroem, por pura incompetência e falta de respeito para com o seu público. Mas Madalena Vitorino está acima disso e até se permitu recusar um subsídio do IPAE prejudicando os que com ela competiram em concursos para apoios pontuais para a criação coreográfica.


Vasco Wellenkamp que no passado foi bailarino, coreógrafo residente, professor de dança e ensaiador do Ballet Gulbenkian, viu, há anos atrás, o seu nome recusado (por Jorge Salavisa e amigos) para a direcção da companhia da Fundação. Ao desvincular-se do grupo da Praça de Espanha, com a sua reforma no bolso, criou a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo.

Ao fim de quase uma década, delega em Pedro Goucha Gomes os destinos deste grupo de bailarinas portuguesas e bailarinos estrangeiros, saindo para a direcção da CNB.

O pior é que no Teatro Camões, casa que Wellenkamp, doravante, vai também programar, o seu sucessor (Pedro Gomes) no primeiro programa da “nova” companhia já se queixou publicamente que esta está à beira da banca-rota. A isto costuma chamar-se "presente envenenado".


Negro


Apesar da CNB ter voltado para as mãos de um director português (Vasco Wellenkamp) a "invenção" do OPART pelo Ministério da Cultura – juntando a Ópera e a Dança estatais – resultou na pior programação estabelecida para uma temporada da companhia nos seus 30 anos de existência.

Que se saiba não aparece uma única criação nem obras de fundo, em 2008, que justifiquem o trabalho de uma estrutura, pesadíssima e cara, que muito pouco faz pela dança e pelos bailarinos portugueses.

Resultado, a ópera parece não ter melhorado mas a dança foi, definitivamente, subalternizada pelo Ministério da Cultura. Como prova disso até a coreografia da ópera de Emmanuel Nunes, “Das Märchen” (O Conto), foi entregue à norte-americana Amanda Miller! E os bailarinos e coreógrafos da CNB ficaram sentados a olhar para o S. Carlos… da Rua Vitor Cordon.

Desde logo se temeu pelos resultados de uma decisão política que, dificilmente, fará da Companhia Nacional de Bailado uma companhia verdadeiramente nacional, expedita e criativa. Pelo contrário, tornou-a refém dos dinheiros gastos com a programação do Teatro de S. Carlos. Só para a primeira ópera de 2008, "O Conto", já se gastou mais de um milhão de euros.

A avaliar pelo "andar da carruagem" tudo leva a crer que, uma vez mais, e como é hábito na CNB, se mudou um pouco... para tudo ficar igual!

A revitalização da companhia implica, necessariamente, uma reestruturação séria e de base, que ninguém parece disposto a levar a cabo. Confiná-la ao Teatro Camões e a meia dúzia de espectáculos na província, é mais um tremendo erro com consequências previsíveis. E a obrigação do seu director artístico também "programar" o Teatro Camões é outra situação que não se entende.

Para dar um toque ainda mais negro a todo este anedotário, a verdade é que ainda está por explicar a falta de 3,6 milhões de Euros – detectada pelo Tribunal de Contas e relativa (só) à gestão do ano de 2004 - da responsabilidade da anterior direcção da CNB.

A imprensa tem vindo a noticiar que os antigos directores da CNB, Ana Pereira Caldas e Carlos Vargas (este promovido a Administrador do Teatro Nacional de S. Carlos / OPART) se irão sentar no banco dos réus para justificar, entre outras coisas, a má gestão de dinheiros públicos".

Haja Justiça!