O coreógrafo português João Fiadeiro apresentou, cerca de dois anos depois, também no Acarte (FCG), "O Desejo Ardente Deve Ser Acompanhado de Uma Vontade Firme" – uma peça que pretendia "falar da memória" (...) "ao falar dela, falaria do tempo" (...) "e das pessoas que encontramos pelo caminho e de como são sempre a mesma pessoa com rostos e nomes diferentes". Seria mesmo em Pessoa que Fiadeiro buscou inspiração? Também o Casino Estoril, uns tempos depois, investiria num trabalho de teatro musical, "Pessoa em Lisboa", em que as danças (da autoria do espanhol Javier Gomez e da inglesa Beverley Rolls), a música e o envolvimento cénico pretendiam "conviver com Fernando António Nogueira Pessoa". Durante muitos meses, portugueses e estrangeiros puderam assistir a um "hino" ao poeta e às várias pessoas que em si conviveram, numa Lisboa que se desfazia entre sonhos e pesadelos. Como se pode inferir, designadamente dos exemplos em presença, a interpretação da obra de Pessoa, assim como a de qualquer autor, é diversa. Como afirmava Catherine Diverrès numa entrevista a António Melo aquando da apresentação de "Concertino", o poeta é um "escritor eleito para o bailarino, devido à agudeza da sua percepção". E acrescentava, este "representa a consciência da consciência e todo o bailarino deve aprender que, antes do músculo, há o pensamento". Não será apenas ao bailarino que esta "consciência da consciência" diz respeito mas sem dúvida se trata de um meio ainda pouco explorado, tendo em conta a panóplia de emoções e ideias que podem ser dissecadas na obra de Pessoa. Ideias geniais parecem não ter sido levadas a bom termo, seja por limitações de viabilidade ou por incompatibilidade com o efeito desejado. Fica assim muito por desenvolver, um mundo novo por desvendar.

Em conclusão, todas as experiências coreográfica assinaladas – e eventualmente outras, que tenham escapado a esta listagem - tiveram a sua validade pelo enriquecimento que nos trazem, uma vez que são marcos vivos de vícios e caminhos a ter em conta na execução de obras posteriores, ou afinal, na persecução do ideal estético de cada indivíduo. (Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena, in Mensagem, X. Mar Portuguez) Todavia, não parece que seja possível "reanimar" o panorama da dança em Portugal, ou colmatar as lacunas nele existentes, através da "ofensa" ou "desvalorização" das experiências dos autores e de todos aqueles que vivem a dança. Num período em que se tende, cada vez mais, para o esvaziamento de rigor artístico e para a apetência pelo consumo de objectos de "marca", em detrimento do "encantamento" proporcionado pelo objecto em si, somente através do incentivo e do espirito crítico e criador se poderá evoluir. Pelo amor à arte. (O homem sonha, a obra nasce, in Mensagem, I. O Infante).