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Desde que se inventou o Entrudo ele é indissociável das danças, dos excessos e da folia, permitindo ao comum dos mortais uma mudança temporária de comportamentos, mesmo os mais ousados. Trata-se de uma experiência temporária de “alterità” (o ser outra pessoa) em que se podem soltar todos os sentidos com descontrolada exuberância.

Festa de cariz pagão, espartilhada entre dois períodos religiosos do calendário gregoriano, a Epifania e a Quaresma, o Carnaval, que tem origens na antiguidade, foi recuperado pelos Romanos (com as famosas orgias antecedidas de desfiles de mascarados e carros alegóricos) e desenvolveu-se, de um modo mais artístico, na Renascença, com a adopção de animados bailes e coloridas mascaradas. A Igreja Católica algumas vezes tolerou mas, quase sempre, reprimiu combatendo a ideia da libertação dos corpos.

Em celebrações pouco organizadas e de cariz marcadamente popular ou em festas cortesãs com sofisticadas roupagens e coreografias alusivas à época, certo é que o Carnaval, como hoje o conhecemos, tem origem na sociedade vitoriana do séc. XIX tendo dado origem aos actuais desfiles com carros alegóricos e muita dança à sua volta. Algumas cidades começaram a “brincar” de maneiras diferentes, de acordo com os seus costumes e tradições, tendo Paris e Veneza, servido de modelo ao chamado “Carnaval moderno” exportado para todo o Mundo. Cidades como Nice (França), Nova Orleães (EUA) Port of Spain (Trinidad e Tobago) e Rio de Janeiro (Brasil), são hoje marcos incontornáveis Actualmente os desfiles cariocas no Sambódromo, presididos pelo Rei Momo, e os festejos de Olinda e Salvador, são os mais importantes cartazes turísticos do Brasil nesta época.

 

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Em Portugal pode-se dizer que existem vários tipos de Carnaval em que a dança sempre marca posição. Em terras como Loulé, o seu original “Carnaval civilizado” (que já tem mais de um século) “abrasileirou-se” nas danças e nas folias enquanto que numa vila como Cabanas de Viriato – terra de Aristides Sousa Mendes – os folguedos realizam-se ao som da valsa e a “dança dos cus” mantém viva uma tradição que vem de 1865.

Já em Lazarim, freguesia do concelho de Lamego, são as coloridas máscaras de madeira e os fatos franjeados (disfarces conhecidos por “caretos”) que protegem a identidade dos homens que se dedicam às mais “impuras” traquinices ensopadas de crítica social. O Carnaval, mais ou menos trapalhão e mais ou menos plastificado, é sempre acompanhado de muita dança e, sobretudo, a maior folia possível para libertar os corpos e as almas.

 

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Na mitologia grega Momo, filho do Sono e da Noite, era o deus da zombaria, do sarcasmo, da galhofa, do delírio e da irreverência. Devido ao seu costume de criticar e ridicularizar os outros deuses, Zeus, a divindade maior do Olimpo, perdeu a paciência e mandou-o para a Terra, onde o jovem “deportado” passou a ser representado como alguém a tirar uma máscara com debochado e que, sacudindo guizos, apresentava o estandarte da folia que era a razão da sua existência.